sábado, 18 de outubro de 2008

RESUMO DA CATEGORIA IDEOLOGIA - AULA VERA CORAZZA

CATEGORIA – IDEOLOGIA

1. Hoje tudo está impregnado de ideologia. (p.6)
A cultural liberal conservadora do sistema capitalista funciona de modo a apresentar ou desvirtuar suas próprias regras de seletividade, preconceito, discriminação, e até a distorção sistemática como normalidade, objetividade e imparcialidade científica.
O discurso ideológico domina a tal ponto a determinação de todos os valores que aceitamos sem questionamento, sem uma argumentação fundamentada. O próprio ato de questionar um discurso ideológico dominante já está determinado e preestabelecido: quanto nos é permitido questionar; de que ponto de vista; e com que finalidade.
Aqueles que aceitam o discurso dominante, rejeitam como legítimas todas as tentativas de identificar os pressupostos ocultos e os valores implícitos com os quais o sistema dominante está comprometido.
Em nome da objetividade e da ciência os defensores da ideologia dominante desqualificam o uso de determinadas categorias vitais do pensamento critico. Porque reconhecer a legitimidade de determinadas categoriais implica em aceitar o exame dos próprios pressupostos que são assumidos como verdadeiros.
Por exemplo, palavras do dicionário como conservador e liberal têm uma conotação positiva, enquanto que, revolucionário recebe uma descrição negativa (extremista, enfurecido, fanático, radical, ultra) que caracteriza como objeto de atenção do poder judiciário e autoridades penitenciarias.
Outro exemplo, um artigo sobre a exploração econômica na África, onde um professor enfatiza que a palavra exploração, usada como imperialismo não é um termo para estudiosos sérios, porque o seu significado vem ficando confuso por causa de conceitos ideológicos.
Ora, exploração e imperialismo são termos importantes do vocabulário socioeconômico, assim como capitalismo. Se estes conceitos forem tratados com cautela, como vamos conhecer a sociedade em que vivemos? Ou melhor, que tipo de conhecimento teremos da nossa sociedade? Ou ainda, qual o tipo de conhecimento nos é permitido ter da sociedade? Isto não é ideológico? Por que os conceitos que chamam a atenção dos explorados e oprimidos, sobre pressupostos ocultos e valores implícitos da ideologia dominante, são considerados ideológicos? Somente estes?
A ideologia dominante nas sociedades capitalistas se afirma fortemente em todos os níveis. Há muitos modos pelos quais os diversos níveis do discurso ideológico se intercomunicam.
Como exemplo, Mészáros lembra que no pós-guerra muitos intelectuais afirmaram em seus livros e estudos acadêmicos que a distinção entre direita e esquerda política era antiquada para uma sociedade avançada. Ou seja, as palavras direita e esquerda não tinham mais sem sentido.
Esta idéia foi abraçada com entusiasmo pelos formadores da opinião pública e amplamente defendida pelas instituições culturais de todas as sociedades capitalistas. A interação foi tão grande entre sofisticado e vulgar, que se tornou comum referir-se aos representantes da direita como moderados e aos da esquerda como extremistas, fanáticos, dogmáticos, entre outras coisas similares.
Desse modo, extinguiu-se a direita e a esquerda no campo político e social porque é antiquada com a democracia. Como afirma Wood: porque não existe democracia no capitalismo.
O discurso ideológico da derrota da esquerda foi interpretado pelos pós-modernos como o fim da luta política entre grupos sociais com visões sociais de mundo diferentes: contrárias, antagônicas. Da mesma forma: o fim da história, das classes, da ideologia, e, mais recentemente o fim do trabalho. Que significa o fim dos direitos adquiridos pelo trabalhador e a vitória da exploração capitalista.
A ideologia dominante tem uma grande vantagem na determinação do que pode ser considerado um critério legítimo de avaliação do conflito, ela controla efetivamente todas as instituições culturais e políticas da sociedade.
Um exemplo é o programa de treinamento oportunidades para a juventude do governo britânico. Oculta os índices de desemprego, a privatização da saúde, exclui direitos adquiridos retirando-os os benefícios do seguro social. Para o governo esta medida não se tratava de forçar ninguém e sim de encorajar os jovens desempregados a aproveitarem as oportunidades oferecidas a eles.
Os defensores da ideologia dominante, que se dizem neutros, defendem suas idéias como princípios verdadeiros e científicos. Exemplo as críticas que Keynes faz a Marx. (ler citação da p.8)
Parece que a prepotência (ou a ignorância) de Keynes não o permite enxergar que a ideologia dominante é que impõe um terrível processo de conversão, para usar suas próprias palavras, à miséria social.
É claro que as mesmas regras não se aplicam a ordem dominante. Para o capital existe sempre dois pesos e duas medidas: uma para o lucro, outra para os explorados.
O poder da ideologia não pode ser superestimado porque afeta tanto os que negam a sua existência, quanto os que reconhecem abertamente os interesses e valores intrínsecos das várias ideologias que reproduzem o capital.
Mészáros diz que a ideologia é uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. (ler citação da p.9)
Na sociedade divida pelos interesses de classes as ideologias dominantes mais importantes definem suas posições como totalizadoras (únicas, universais, verdadeiras) e como princípios éticos do desenvolvimento humano frente às estratégias ideológicas dos oprimidos.
Desse modo, as ideologias conflitantes, em cada período histórico, constituem a consciência pratica necessária através da qual as classes sociais se relacionam e se confrontam, articulando sua visão de ordem social como correta e apropriada para a totalidade da sociedade.
O conflito não será resolvido nos limites do sistema capitalista. É necessário negar o modo dominante de controle sobre o metabolismo social dentro dos limites das relações de produção preestabelecida. Só assim os homens se tornam conscientes do conflito e o resolvem pela luta.

2. A passagem da dialética idealista para a dialética materialista.
Partimos da idéia de movimento interno da realidade, cujo motor é a contradição que se estabelece entre classes sociais, entre homens em condições históricas e sociais.
O nosso ponto de partida é gênese da mercadoria (origem e desenvolvimento) para retomar os principais conceitos e categorias da dialética materialista e mostrar como se dá o ocultamento e a reprodução das contradições sociais através da ideologia.
O modo de produção capitalista separou o trabalhador das condições materiais de produção da sua sobrevivência. (meios de produção)
Este processo converte em capital os meios sociais de vida e de produção, converte os produtores diretos em assalariados.
Na sociedade moderna há dois tipos de homem: o burguês, proprietário privado das condições de trabalho; o trabalhador, desprovido destas condições.
Esta é uma relação de interdependência: o capital não pode se acumular sem a exploração do trabalho e o trabalhador não possui as condições de trabalho (reprodução da força de trabalho).
O trabalho livre tem tuas faces: a) o trabalho como expressão de uma vontade livre e dotada de fins próprios (lucro e acumulação de capital); e, b) o trabalho como relação da máquina corporal (força de trabalho) com as máquinas sem vida (meios de produção). Ver categoria MP que apresentei na aula do dia 01/04.
Nesta divisão, o lado livre e espiritual do trabalho é o burguês, que determina os fins. O outro lado, mecânico e corpóreo do trabalho é o trabalhador. Ou seja, a liberdade versus a necessidade. (Esta é uma questão filosófica ver Chauí, p.16)
A realidade é um processo, um movimento temporal de constituição de seres e de suas significações. Este processo é determinado pelo modo como os indivíduos se relacionam entre si e com a natureza (relações de produção).
É preciso partir das relações sociais para entender como e porque os homens agem e pensam de maneiras determinadas, sendo capazes de atribuir sentido a tais relações, de conservá-las ou de transformá-las. Isto significa que devemos compreender as relações sociais como processos históricos.
A história é modo como os homens determinados, em condições determinadas, criam os meios e as formas de sua existência social, econômica, política e cultural, e como reproduzem ou transformam esta existência.
A história é práxis, é o real, isto é, o movimento pelo qual os homens, em condições que nem sempre foram escolhidas por eles, legitimam um modo de produção através de instituições determinadas. Ao fazer isto, os homens produzem idéias ou representações pelas quais procuram explicar e compreender suas vidas individuais, sociais e espirituais.
Estas idéias e representações tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Este ocultamento da realidade social chama-se ideologia. Através dela, os homens legitimam as condições sociais de exploração e de dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas.
Qual o conceito de ideologia? Ver o resumo da aula 01/04: O que é teoria? Conhecimento? O que é conceito? O que é categoria?
Qual a diferença fundamental entre a dialética materialista e idealista?
Ver origem e desenvolvimento do conceito, 2ª fase do pensamento de Marx, p.16 deste trabalho.
Marx utiliza o conceito ideologia, pela primeira vez, em A ideologia Alemã (1846). O conceito e sua análise têm como objeto de estudo o pensamento dos filósofos alemães posteriores a Hegel.
Portanto, é um pensamento historicamente determinado. Esta é a diferença fundamental da dialética materialista para a idealista. Marx não separa a produção das idéias das condições históricas em que estas são produzidas.
A ideologia se caracteriza exatamente pela separação das idéias da realidade da qual são produzidas.
A história dos homens e a história da natureza são inseparáveis. É esta a concepção de história para Marx. Ele se interessa pela história dos homens e como estes podem transformar a natureza. Para ele, a própria ideologia é um aspecto dessa história.
Marx conserva as contribuições do pensamento de Hegel, mas critica o seu idealismo. Ele mantém a idéia de movimento interno da produção da realidade, cujo motor é a contradição estabelece uma diferença fundamental:
Para Hegel, a contradição se estabelece no espírito, consigo mesmo, entre sua exteriorização em obras e sua interiorização em idéias.
Para Marx, a contradição se estabelece entre classes sociais, entre homens em condições históricas e sociais. A história é modo real como homens produzem suas condições reais de existência. É a história como os homens reproduzem a si mesmos, como produzem e reproduzem suas relações sociais.
O método histórico dialético deve partir do abstrato ao concreto. (Ver a aula do dia 27/05)
A mercadoria será considerada a forma mais abstrata do modo de produção capitalista, o qual aparece para nós como uma imensa produção, acumulação, distribuição e consumo.
Porém, através do seu método Marx revelará outra mercadoria: a força de trabalho. Um elemento fundamental da produção capitalista, que é vendida no mercado e assume a forma de uma mercadoria qualquer.
Quando compreendemos a origem e desenvolvimento da mercadoria percebemos que ela não é tão simples como ela aparece, pois ela é, ao mesmo tempo, valor de uso e valor de troca.
Como valor de uso, vale pela sua utilidade. Como valor de troca, vale pelo seu valor no mercado.
Mas o valor da mercadoria não é determinado no mercado e sim na produção. Seu valor é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la.
A mercadoria inclui no seu preço os gastos físicos, psíquicos e econômicos. Ela não é uma coisa, mas trabalho social concentrado.
O processo de produção de mercadorias utiliza capital e trabalho. O capital é propriedade privada do capitalista. A força de trabalho é trocada por um salário (trabalho socialmente necessário). O salário que o trabalhador recebe não remunera todo o seu tempo de trabalho, uma parte do tempo é apropriada pelo capital e denomina mais-valia, ou seja, o valor que o trabalhador produz além da reprodução da sua força de trabalho.
A mais-valia apropriada constitui o lucro do proprietário e transforma-se no seu capital. Portanto, a origem do capital é o trabalho não pago. Graças a mais-valia a mercadoria não é um valor de uso, é valor de uma troca qualquer, mas é um valor capitalista. Ou seja, a mercadoria é tempo de trabalho social, porém, não é qualquer tempo é o tempo não pago. A mercadoria oculta o fato de que há exploração do trabalho por parte do proprietário dos meios de produção.
A dialética é materialista porque seu motor é trabalho material: o trabalho como relações dos homens com a natureza, para negar as coisas naturais e transformar em produtos de seu trabalho (relações de produção). O que interessa para dialética materialista é a divisão social do trabalho e as relações dos homens divididos na produção.
O motor da dialética materialista é a forma determinada das condições de trabalho, das condições de produção e reprodução da existência social dos homens (Chauí, 1981, p.54). Esta forma é determinada por uma contradição interna, pela luta de classes, pelo antagonismo entre proprietários e não-proprietários das condições de trabalho.
Para o materialismo histórico e dialético é impossível compreender a origem e a função da ideologia, sem compreender a luta de classes, pois a ideologia é um dos instrumentos de dominação de classe e uma das formas da luta de classes.
A ideologia é usada pelos dominantes de forma que os dominados não percebem que estão sendo dominados.
O modo de produção capitalista ao separar os homens em proprietários e não proprietários, confere poder aos proprietários. Os não proprietários são explorados economicamente e dominados politicamente, através da ideologia.
A ideologia é o processo pelo qual “as idéias da classe dominante se tornam as idéias dominantes na sociedade”.
3. A ideologia é um instrumento eficaz de poder e reprodução do capital
Ela faz com que os fenômenos materiais da realidade social se apresentem como naturais e não historicamente produzida pelos homens. Este é o propósito da ideologia, que as coisas sejam aceitas como estão porque elas sempre foram e serão naturalmente assim. Esse é o processo de alienação social que se dá pela reificação das relações e pelo fetichismo da mercadoria. Assim, podemos dizer que ideologia é ocultamento, dissimulação, negação, oferecimento de imagens ilusórias, que podemos definir como mediação.
Segundo Mészáros, a analise da tendência das conseqüências da globalização requer uma analise dos mecanismos internos do sociometabolismo do capital e do capitalismo. A natureza desse metabolismo social pode ser definida como mediação.
A mediação é uma necessidade humana, pois homem não tem uma relação direta com a natureza. Essa mediação é perversa, diz Mészáros a mediação da mediação, uma mediação de 2ª ordem, alienada, da qual ninguém está livre.
Quais são os imperativos dessas mediações que ninguém deixa de obedecer? São eles:
- o dinheiro, com suas inúmeras formas enganadoras e dominantes, até à pressão dos sistemas financeiros globais de hoje;
- o trabalho, separado da possibilidade de controle (do assalariado, controlado) do capital para o capitalista, por onde se dá a dominação;
- o status do capital no cenário global, por meios violentos, levando a humanidade à destruição;
- o incontrolável Estado Mundial e suas precárias condições.
A classe trabalhadora não pode se eximir desses imperativos. E o grande capital não tem limite. Ele é incapaz de reconhecer limites.
Mészáros apresenta algumas relações fundamentais que ilustraram esse aspecto, identificando estes limites absoluto do sistema capitalista, revelando que todos eles são formas de contradições insolúveis. Criadas e reproduzidas pelas relações de produção.
Um desse limites absoluto diz respeito ao emprego. O capital é incapaz de prover os empregos necessários. Segundo as Nações Unidas, no que se refere ao desenvolvimento social, os números mostram que 50% da força de trabalho está subempregada ou desempregada no mundo.
O subemprego é uma forma de ‘esconder’ a realidade do desemprego. A grande maioria, quase a metade da população do mundo vive na condição de miséria social, de degradação da vida humana.
A ideologia dominante diz que a tecnologia irá ajudar a todos. Na verdade, se vê ao contrário. A inovação tecnológica é a grande desculpa para se desempregar pessoas.
Segundo Mészáros, não há saída possível para o capitalismo, pois este sistema não tem limite, não é capaz de resolver a gravidade extrema de suas contradições que são permanentemente criadas por ele.
A ‘não-alternativa’ ao capital, denuncia ele, significa a ‘não-alternativa’ para a sobrevivência da própria humanidade. É preciso criar alternativas para enfrentar do sistema, na sua totalidade, na sua natureza. Não basta negar o capitalismo, diz ele. É necessário construir possibilidades de mudança para transformar a realidade social.

TESES SOBRE FEUERBACH - ESCRITOS POR MARX

Teses sobre Feuerbach
Karl Marx
1845


Escrito por Marx na primavera de 1845. Publicado pela primeira vez por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx. Traduzido do alemão.
Transcrito por
Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.
HTML por
Jørn Andersen para Marxists' Internet Archive, 25.7.00.
1
A principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias - o de Feuerbach incluído - é que as coisas [der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objeto [dês Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não [são tomados] como atividade sensível humana, praxes, não subjetivamente. Por isso aconteceu que o lado ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo - mas apenas abstratamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a atividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos [Objekte] sensíveis realmente distintos dos objetos do pensamento; mas não toma a própria atividade humana como atividade objetiva [gegenständliche Tätigkeit]. Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica como a genuinamente humana, ao passo que a praxe é tomada e fixada apenas na sua forma de manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o significado da atividade "revolucionária", de crítica prática.
2
A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na praxe que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da praxe é uma questão puramente escolástica.
3
A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen).
A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxes revolucionante.
4
Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, da duplicação do mundo no mundo religioso, representado, e num real. O seu trabalho consiste em resolver o mundo religioso na sua base mundana. Ele perde de vista que depois de completado este trabalho ainda fica por fazer o principal. É que o fato de esta base mundana se destacar de si própria e se fixar, um reino autônomo, nas nuvens, só se pode explicar precisamente pela autodivisão e pelo contradizer-se a si mesma desta base mundana. É esta mesma, portanto, que tem de ser primeiramente entendida na sua contradição e depois praticamente revolucionada por meio da eliminação da contradição. Portanto, depois de, por exemplo a família terrena estar descoberta como o segredo da sagrada família, é a primeira que tem, então, de ser ela mesma teoricamente criticada e praticamente revolucionada.
5
Feuerbach, não contente com o pensamento abstrato, apela ao conhecimento sensível [sinnliche Anschauung]; mas, não toma o mundo sensível como atividade humana sensível prática.
6
Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais.
Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente - isoladamente - humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como "espécie", como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos.
7
Feuerbach não vê, por isso, que o próprio "sentimento religioso" é um produto social e que o indivíduo abstrato que analisa pertence na realidade a uma determinada forma de sociedade.
8
A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na praxe humana e no compreender desta praxe.
9
O máximo que o materialismo contemplativo [der anschauende Materialismus] consegue, isto é, o materialismo que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão [Anschauung] dos indivíduos isolados na "sociedade civil".
10
O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade "civil"; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada.
11
Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

QUEM FOI MARX...

Karl Marx(* Trier, 5 de maio de 1818 - Londres, + 14 de março de 1883)
Marx nasceu em uma família de classe média, de situação confortável, em Trier, às margens do rio Mosela, na Alemanha.Descendia de uma longa linhagem de rabinos, tanto da parte materna quanto paterna, e seu pai, embora fosse intelectualmente um racionalista de formação tipicamente iluminista, que conhecia Voltaire e Lessing de cor, só concordara em ser batizado como protestante para não se ver privado de seu trabalho como um dos mais conceituados advogados de Trier.Aos 17 anos, Marx matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Bonn e mostrou-se sensível ao romantismo que ali predominava: havia ficado noivo pouco antes de Jenny von Westphalen, filha do barão von Westphalen, figura destacada da sociedade de Trier e que havia despertado em Marx o interesse pela literatura romântica e pelo pensamento político de Saint-Simon.No ano seguinte, o pai de Marx mandou-o para a Universidade de Berlim, maior è mais seria, onde ele passou os quatro anos seguintes e abandonou o romantismo em favor do hegelianismo que predominava na capital naquela época. Quando o acesso à carreira universitária lhe foi vedado pelo governo prussiano, Marx transferiu-se para o jornalismo e, em outubro de 1842, foi dirigir, em Colônia, a influente Rheinische Zeitung (Gazeta Renana), jornal liberal apoiado por industriais renanos. Os incisivos artigos de Marx, particularmente sobre questões econômicas, levaram o governo a fechar o jornal, e o seu diretor resolveu emigrar para a França.Ao chegar a Paris em fins de 1843 Marx estabeleceu rapidamente contato com grupos organizados de trabalhadores alemães que haviam emigrado e com as várias seitas de socialistas franceses. Também dirigiu os Deutsch-französische Jahrbücher (Anais franco-alemães), publicação de vida efêmera, que pretendia ser uma ponte entre o nascente socialismo francês e as idéias dos hegelianos "radicais alemães.Durante os primeiros meses de sua permanência em Paris, Marx tomou-se logo comunista convicto e começou a registrar suas idéias e novas concepções em uma série de escritos que mais tarde ficariam conhecidos como Oekonomisch-philosophischen Manuskripte (Manuscritos econômicos e filosóficos), mas que permaneceram inéditos até cerca 'de 1930. Nestes manuscritos, Marx esboçava uma concepção humanista do comunismo, influenciada pela filosofia de Feuerbach e baseada num contraste entre a natureza alienada do trabalho no capitalismo e uma sociedade comunista na qual os seres humanos desenvolveriam livremente sua natureza em produção cooperativa.Foi também em Paris que Marx iniciou a colaboração com Friedrich Engels que durada toda sua vida. Em fins de 1844, Marx foi expulso da capital francesa e transferiu-se (com Engels) para Bruxelas, onde passou os três anos seguintes, tendo nesse período visitado a Inglaterra, que era então o pais industrialmente mais adiantado do mundo e onde a família de Engels tinha interesses na fiação de algodão em Manchester.Em Bruxelas, Marx dedicou-se a um estudo intensivo da história e criou a teoria que veio a ser conhecida como a concepção materialista da história. Essa concepção foi exposta num trabalho (também só publicado postumamente), escrito em colaboração com Engels e conhecido como Die Deutsche Ideologie (A ideologia alemã, cuja tese básica é a de que "a natureza dos indivíduos depende das condições materiais que determinam sua posição".Em princípios de 1848, Marx transferiu-se novamente para Paris, onde a revolução eclodira primeiro, e em seguida para a Alemanha, onde fundou, de novo em Colônia, o periódico Neue Rheinische Zeitung (Nova Gazeta Renana). O jornal, que teve grande influência, sustentava uma linha democrática radical contra a autocracia prussiana, e Marx dedicou suas principais energias à sua direção, já que a Liga Comunista havia sido praticamente dissolvidas. Com a onda revolucionária, porém, o jornal de Marx froi proibido e ele buscou asilo em Londres, em maio de 1849, para começar a "longa e insone noite de exílio" que deveria durar o resto de sua vida.A contribuição de Marx para nossa compreensão da sociedade foi imensa. Seu pensamento não é o sistema abrangente desenvolvido por alguns de seus seguidores sob o nome de MATERIALISMO DIALÉTICO. A própria natureza dialética da sua abordagem dá a esse pensamento um caráter experimental e aberto. Além disso, registra-se com freqüência uma tensão entre o Marx ativista político e o Marx estudioso de economia política.Muitas de suas previsões sobre o futuro do movimento revolucionário não se confirmaram até agora. Mas a ênfase que atribuiu ao fator econômico na sociedade e sua análise das classes sociais tiveram, ambas, enorme influência sobre a história e a sociologia.Cientista social, historiador e revolucionário, Marx foi certamente o pensador socialista que maior influência exerceu sobre o pensamento filosófico e social e sobre a própria história da humanidade. Embora em grande pane ignorado pelos estudiosos acadêmicos de sua época, o conjunto de idéias sociais, econômicas e políticas que desenvolveu conquistou, de forma cada vez mais rápida, a aceitação do movimento socialista após sua morte, em 1883.Quase metade da população do mundo vive hoje sob regimes que se pretendem marxistas.Esse mesmo sucesso, porém, significou que as idéias originais de Marx foram, com freqüência, obscurecidas pelas tentativas de adaptar seu significado a circunstâncias políticas as mais variadas. Além disso, como decorrência da publicação tardia de muitos de seus escritos, só em época relativamente recente surgiu a oportunidade de uma apreciação justa da sua estatura intelectual. (voltar ao início)