terça-feira, 15 de julho de 2014

JOVENS E ADULTOS TRABALHADORES: REALIDADE E POSSIBILIDADES


Sonia Ribas de Souza Soares[1]

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS

 


 

 

JOVENS E ADULTOS TRABALHADORES: REALIDADE E POSSIBILIDADES

 

Nos últimos dias tenho lido István Mészáros e como ele sugere, pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano exige a superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos.

Refletir a educação, e especialmente, a realidade e as possibilidades da Educação de Jovens e adultos trabalhadores é uma tarefa que envolve muitos fenômenos materiais sociais presentes nessa totalidade concreta[2].  Como o autor coloca é necessário pensar a singular crise própria do sistema capitalista, o papel da educação na construção de um outro mundo possível, construir uma educação cuja principal referência seja o ser humano, e transformar a educação numa alavanca capaz de transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias.

Mészáros acredita que a sociedade só se transforma pela luta de classes, sendo necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional diferente. Proporcionar ao povo a tomada de consciência, ter um pensamento critica, e necessidade de todos, o autor, numa entrevista ao Jornal Brasil de Fato (2006) coloca que essas praticas racionais e responsáveis não pode se dar simplesmente por um grupo de intelectuais. O pensamento crítico precisa estar ao alcance de e ser desenvolvido por uma massa de pessoas. O problema é que, desde a mais tenra idade, nas escolas, as pessoas são ensinadas a ser pacatas. Muitas pessoas nem têm acesso à educação formal. Formas alternativas de educação devem ser desenvolvidas pelo povo. É preciso recuperar o sentido da educação, que é se conhecer a si mesmo, aprender por diferentes meios, criativos e alternativos. O pensamento crítico precisa ser desenvolvido pelo povo, pois só ele tem a força de se libertar. Não há fórmula mágica, além da necessidade de estimular a criatividade que a alienação tenta destruir.

 

Pela sua própria natureza o capital, e por conseqüência o sistema capitalista, é irreformável e incorrigível. Quando mudanças no sistema educacional são feitas dentro da lógica do capital, são realizadas com o objetivo de corrigir algum detalhe defeituoso da ordem estabelecida, sem alterar a própria regra geral.

A educação institucionalizada, principalmente nos últimos 150 anos, serviu ao propósito de fornecer os conhecimentos e formação de pessoal necessário para a máquina produtiva, como também transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes, sendo a própria Historia adulterada e falsificada para esse propósito.

Utilizando os escritos de John Locke, Mészáros (2005) nos mostra que as medidas aplicadas aos trabalhadores pobres eram radicalmente diferentes daquelas consideradas adequadas aos “homens da razão”, no final do século XVII; relações de poder impostas com extrema brutalidade nos primórdios do desenvolvimento capitalista, principalmente através da educação.

No decorrer do tempo, as instituições de educação foram se adaptando de acordo com as determinações reprodutivas em mutação do sistema capitalista. Nos perguntamos e conscientemente deduzimos a resposta, se essa aprendizagem, através de uma educação institucionalizada, vem ocorrendo de maneira a conduzir à auto-realização dos indivíduos como “indivíduos socialmente ricos” humanamente (Marx, 2005) ou se ela está a serviço da ordem social alienante controlada pelo capital.

Seja em relação à manutenção ou à mudança de uma dada concepção de mundo, a questão que se coloca para a educação institucionalizada e social fora da escola estabelecida no dia-a-dia, é a necessidade de se modificar de uma forma duradoura a internalização historicamente prevalecente que romperá com a lógica e domínio do capital.

“A aprendizagem é a nossa própria vida”, afirmação de Paracelso (Mészáros, 2005) só será possível se desafiarmos as formas atualmente dominantes de internalização fortemente consolidada nas instituições escolares formais a favor do capital, para uma voltada em direção à perspectiva de uma alternativa hegemônica à ordem existente, que tornasse possível a realização de suas necessárias aspirações emancipadoras.

Vivemos um tempo que há muito tem por característica a relação desumanizante e alienada do trabalho. Tomando o pensamento de Marx, precisamente porque estamos preocupados com um processo histórico imposto pelo próprio trabalho, é possível superar a alienação com uma reestruturação radical das nossas condições de existência há muito estabelecidas, não através da mera negação do status quo, porque permanecem condicionados pelo objeto da sua negação.   Torna-se necessária uma revolução e não apenas uma reforma que continue tendo por base os princípios defendidos pelo capital. Aqui a educação tem papel fundamental para romper com a internalização de políticas que reforçam os interesses capitalistas.

Na concepção marxista a “efetiva transcendência da auto-alienação do trabalho”, é caracterizada como uma tarefa educacional. Nesse contexto, dois conceitos principais devem ser postos em primeiro plano: a universalização da educação e a universalização do trabalho como atividade humana auto-realizadora, nenhuma das duas sendo viável sem a outra.

O papel da educação para além do capital visa uma ordem social qualitativamente diferente ao possibilitar a todos os homens conhecimentos iguais e uma formação mais abrangente e para toda vida que supere aquela definida hoje pelo sistema capitalista, a qual diferencia as classes sociais por saberes competentes a cada um delas e faz da educação uma forma de reprodução da ordem mercadológica existente.

Segundo Mészáros, o grave e insuperável defeito do sistema do capital consiste na alienação de mediações de segunda ordem que ele precisa impor a todo os seres humanos, como a relação de troca entre as mercadorias e o trabalho subordinado a estrutura do capital. O circulo vicioso de desperdício, escassez, ganância e diferenças sociais do sistema capitalista só será rompido com uma intervenção efetiva na educação, capaz de estabelecer prioridades e definir as reais necessidades mediante plena e livre deliberação dos indivíduos envolvidos.

A possibilidade da sobrevivência da humanidade está na necessidade da mudança do nosso modo de vida, senão iremos desaparecer.

“Necessitamos de mudança radical do nosso modo de produção e reprodução socio-metabólico. Uma Transformação que deve ser feita por meio da adoção de praticas responsáveis e racionais necessárias para a única economia viável, orientada pela necessidade humana, ao invés do alienante, desumanizante e degradante lucro.” (MESZAROS, 2009, 27)

 

A realidade da educação está constituída como um elemento de manutenção da hierarquia social, na qual a igualdade e a liberdade é algo meramente formal e não passa de uma ilusão, visto que a desigualdade social é concreta e inequívoca. No entanto, um das possibilidades de viabilizar a superação das dicotomias existentes e da emancipação do ser humano reside na integração entre ensino e trabalho.

E quando pensamos num currículo que atenta a jovens e adultos trabalhadores, seres reais, históricos, que vive o mundo da pseudoconcreticidade[3], a categoria trabalho está na centralidade. Pois a especificidade do universo de alunos da EJA, ao se tratar de trabalhadores, remete necessariamente uma reflexão sobre o tipo de currículo que atenda essa população para possibilitar a relação da educação com o mundo do trabalho.

É necessário a universalização da educação e a universalização do trabalho, pois somente com a união destes dois conceitos como base para uma sociedade melhor teremos de fato uma perspectiva de mudança. Um não é viável sem o outro.

A educação na perspectiva marxiana reside na integração entre o ensino e o trabalho, que para eles designam, ensino politécnico ou formação omnilateral. Por meio desta educação o ser humano desenvolveria se em todos os sentidos. E essa unidade deve-se dar desde a infância. O tripé básico para todos: crianças, jovens e adultos deveria se constituir-se em Ensino Intelectual (cultura geral), Desenvolvimento Físico (ginástica e esportes) e Aprendizagem profissional polivalente (técnico - cientifico). Porque o ensino é um instrumento para o conhecimento e também para a transformação da sociedade e do mundo.

Este é o potencial e o caráter revolucionário da educação. O proletário, por si só não conquista sua consciência de classe, sua consciência política, justamente pelo fato de ter sido privado, desde o inicio, dos meios que lhe permitiriam consegui-lo. Por isso, há a necessidade de um processo educativo pautado em um currículo e um Projeto Político Pedagógico definido, voltado aos interesses da grande maioria desprovida das necessidades básicas materiais. A meu ver, é aqui que surge o papel estratégico da escola, os educadores e intelectuais, os quais são decisivos para a construção da consciência de classe do trabalhador.

A concepção de educação de Marx e Engels é pertinente, em virtude que sua proposta recupera o sentido do trabalho enquanto atividade vital e que o homem humaniza-se sempre mais ao invés de alienar-se. A educação é concebida, não como instrumento de dominação e manutenção do status quo (como acontece atualmente), mas como processo de transformação desta situação. Desse modo, a educação deve vir para corroborar esta sistematização que não é meramente teórica ou abstrata, mas real – prática.

Na sociedade contemporânea a educação reproduz o sistema dominante, tanto ideologicamente quanto nos níveis técnico e produtivo. A sociedade socialista (que almejamos) a educação assume um caráter dinâmico, transformador, tendo sempre o ser humano e sua dignidade como ponto de referência. Uma educação omnilateral é o que continua fazendo falta em nossa sociedade.

O atual sistema educativo, sobretudo no Brasil, vem confirmando o que se diz sobre reprodução, divisão social e dominação. Os projetos Políticos Pedagógicos até existem e são propostos, mas são postos em andamento aqueles que legitimam o sistema e não representam para ele uma ameaça.

Sabemos que somente através da educação não poderemos nunca transformar a sociedade, na qual a educação serve e ajuda a desenvolver-se, ao mesmo tempo, que se desenvolve, de acordo com o mundo real na qual esta inserida, porém, é possível que seja uma das três alavancas fundamentais junto à economia e à política, sobre as quais os processos de transformação de uma realidade social avançam e alcançam maturidade.

A política neoliberal de redução das responsabilidades do estado, de redução do espaço público, e portando, de redução de direitos públicos avança rapidamente na rota da lógica de mercado com o espaço de privilégios e seleção.

À medida que a sociedade contemporânea produz mais conhecimento científico e tecnológico, a maioria da população é submetida a um processo de brutalização, expresso de forma eloqüente na desqualificação do ensino público, nos baixos investimentos em educação, na permanência dos índices de evasão e repetência, na baixa escolaridade média da população, no número de analfabetos, etc. 

Por isso mesmo, hoje, mais do que ontem, é preciso manter oposição a essa política, e ao mesmo tempo, afirmar a possibilidade da esperança. Mas para isso Mészáros (2009) coloca a necessidade de adoção de práticas responsáveis e racionais necessárias para a única economia viável, orientada pela necessidade humana, ao invés do alienante, desumanizante e degradante lucro.

Dessa forma que me proponho, sugerir algumas reflexões sobre uma nova constituição de um currículo como possibilidade para os jovens e adultos trabalhadores, que não teve acesso à educação.

Primeiramente, devo expressar que o currículo é responsável pelo tipo de profissional ou pessoa que se forma, ou melhor, o currículo é um instrumento de um mundo real muito maior que o mundo da escola. O currículo não surge no vazio. Ele é, em geral, organizado com elementos determinantes de um modo de produção, elementos que consciente ou inconsciente, aceitamos, apesar de que não satisfaz nossas necessidades e aspirações. E isso deve à carga ideológica que suportam os conteúdos dos currículos de formação de profissionais e pessoas. Ou porque, na realidade, não conheço outro caminho, ou sigo sem me apartar-me do longo processo de formação que, de forma inconsciente, aprovo.

Não é a sociedade ou os professores os que fazem os currículos e determinam o tipo de pessoa que desejamos formar. É a classe social dominante, o modo de produção e reprodução socio-metabólico que estabelece direta ou indiretamente os princípios e conteúdos dos currículos de que necessitamos. Ela usa todos os meios que possui para alcançar seus objetivos.

Então o currículo que apontarei aqui especialmente no campo da EJA pode estar longe do mundo real em que vivo, ser utópica, mas é uma maneira de dizer que compreendemos a realidade da qual vivemos e que não estamos satisfeitos com ela, e também que todos os modos de produção são históricos, ai reina nossa esperança.

Partindo da realidade de que o currículo não se organiza e reorganiza num vazio, como alguns poderiam chegar a crer. Porém sabendo que existe uma realidade hostil contra os desejos humanos de satisfazer as necessidades materiais e espirituais da grande maioria de pessoas, que pensei um currículo juntamente com a autora Viero, e outros, que para mim está mais próxima, do que até o momento, tenho sistematizado.

Pensar num currículo que atenda jovens e adultos trabalhadores é necessário uma contextualização sobre esse universo de pessoas, para poder constituir as áreas de conhecimento. Para isso é necessário, segundo Viero[4], enquanto professor, saber quem são os alunos da EJA para poder abordar o currículo. E para responder essa pergunta é necessário ter como ponto de partida um aluno real, histórico, trabalhador, que vive as relações de trabalho, no qual o ser trabalhador transforma–se na medida que as relações de trabalho mudam. E os alunos da EJA vivem do trabalho, mas no capitalismo atual a pobreza e o desemprego aumentam o tempo todo, ainda mais agora na atual crise do próprio capitalismo. Esse sistema não oferece alternativas de vida digna para esses trabalhadores, pois esse fato não é importante para ele.

Trabalhar com os alunos da EJA, na atual conjuntura é trabalhar com pessoas que segundo essa pesquisa não tem a quantidade de elementos necessários para se ter uma vida digna, mais humana e com melhor qualidade. É uma realidade que exige de nós professores, um trabalho que se organiza e se reorganiza a partir das circunstancias em que as relações vão se materializando, e isso exige uma constante abertura de sistematização dos processos pedagógicos.

Dessa forma, Viero[5] ratifica que um currículo de EJA exige a superação das generalizações abstratas, tratam as alunas e os alunos de forma homogênea, resultando em trabalhos de sala de aula, que tem como base propostas pedagógicas compensatórias para os alunos “ideais”. E assim negando ao aluno a condição de sujeito de direito, a sua subjetividade e alteridade, tratando-os como alguém digno de pena, portando vendo-o com inferioridade.

Reinventar o currículo, no sentido de constituir o trabalho com as áreas de conhecimento, desde o ponto de vista, de um processo pedagógico planejado, para quem cria condições de inverter a situação de divisão social na educação, remete, necessariamente, para a problematização da história que caracteriza os jovens e adultos pouco escolarizados como alguém desprovido de conhecimento e sem muitas capacidades de criação e produção.

Analisando a história da EJA observamos que a relação com o mundo do trabalho não é neutra. Defendo, amparada em Siqueira (2005), Aguiar (2001), Viero (2004) a educação como um processo de permanente ressignificação das práticas sócias. Uma abordagem que problematiza a naturalização das relações capitalistas, fundadas numa concepção produtivista de educação, que visa à produção do lucro e não da vida. E é essa a responsável pelo afastamento de grande parte da população desse direito.

A concepção que defendo trabalha desde o ponto de vista de uma educação que resssignifique o estatuto da esperança no espaço e no tempo em que nos encontramos. Como diz Viero[6]

(...) nesse sentido, o currículo em EJA pode se transformar em campos de experimentações, em que seja possível criar localamente alternativas de educação de jovens e adultos que a especificidade das necessidades voltadas para a produção da vida desse universo de alunos exige. (Viero, 2001)

 

Transformar a sistematização do currículo em experiências que tornam possíveis inúmeras alternativas que representam à gênese de um novo trabalho escolar, capaz de organizar uma nova cultura escolar fundada num processo de participação, produção e socialização do saber, contribuindo de forma significativa para um projeto de desenvolvimento alternativo.

O processo pedagógico de uma escola, organizada para atenderem jovens e adultos, exige um projeto em que as áreas de conhecimentos transitem entre si, de forma interdisciplinar, negando a disciplina, para que o professor e o aluno percebam que o trabalho de sala de aula é especifico daquele projeto de escola.

E para que isso ocorra é necessário que o currículo dessa escola tenha uma forma materializada a partir do diálogo com os conhecimentos que a vida desses alunos exige. Por que se continuarmos trabalhando com estruturas fragmentadas da disciplina onde o professor garante o seu poder, não nos coloca como desafio formar os alunos inseridos de forma critica no contexto atual, isto é, no tempo em que as alunas e alunos vivem.

Aqui há a necessidade de uma formação permanente dos professores como parte integrante do currículo. Pois para organizar projetos para compreender os sujeitos dentro da escola, na relação com o contexto, se coloca como necessário efetivar espaços em que professores em dialogo com alunos possam, a partir dos referenciais teóricos e de suas práticas, estabelecerem trocas com seus pares, organizando coletivamente o trabalho, para garantir a permanência do processo de estudo para compreender a complexa dimensão da vida dos alunos. 

Um elemento fundamental para que essa concepção de currículo aconteça é a pesquisa como parte integrante do processo educativo. Ratifico minha afirmação em Triviños[7] e Viero (2004)[8] porque só assim, esse processo se materializará de forma a relacionar dialeticamente conhecimentos existentes trazidos pelas alunas e alunos – professoras e professores com o conhecimento que se cria no processo pedagógico.

Organizar uma proposta de escola para jovens e adultos trabalhadores remete problematizar a própria escola e reorganizá-la a partir de novos parâmetros que contemple a especificidade dessas pessoas.  Resgatando a humanidade do homem, a concretude do concreto que se organiza e reorganiza numa permanente abertura, resgatar o direito da criatividade da imaginação, inspirando leituras mais próximas do real, tradutora de possibilidades de um futuro diferente para a EJA.

Nesse sentido o currículo para essa escola tem a participação de jovens e adultos trabalhadores que participam como pessoas históricas, porque estão inseridas numa comunidade concreta. Esses têm nomes, apelidos, rostos, histórias de vida, e desenvolverão aptidões circunstanciais em que a formação é um processo dialético de interação do homem com o mundo, que não pressupõe uma imagem ideal previa a ser atingida.

Sabemos que não é fácil colocar em prática alguns desses elementos apontados aqui, porém é uma das possibilidades de pensar e fazer um currículo para essas pessoas desprovidas das necessidades básicas de vida, que estão inseridos numa comunidade e que luta, muitas vezes sem compreender, pelo seu espaço e direito público.

Dessa forma, recriar o currículo para uma escola de EJA, remete derrubar barreiras historicamente, que vai separando a escola da comunidade e buscar recuperar a escola enquanto um espaço inserido no seu contexto, e como um lugar público se encontra vinculada a comunidade em que os alunos tenham poder de decisão na gestão da vida da escola.

Fundamentada em Colao (2005) faço alguns apontamentos que creio ser importante para a sistematização do currículo da EJA. Que a EJA em seu processo educativo consiga proporcionar elementos de compreensão sobre aspectos fundamentais na formação do ser social. Destacamos os aspectos sociais, históricos, econômicos e culturais, não de forma linear, mas tomando como base central o modo de produção capitalista no qual, atualmente, estamos inseridos possibilitando uma análise de certas categorias bases como: trabalho, ideologia, mais-valia, desemprego, trabalho infantil, a partir da realidade econômica de que os alunos já conhecem e vivem.

Como parto de uma concepção de que a educação é permanente, e não uma educação compensatória de EJA, poderia ser trabalhados com os alunos formas de aprender a pensar, partindo de três elementos básicos: a concepção de mundo, vida e ser humano. Isso é filosofia[9].

A questão do esporte na educação, hoje atualmente na escola em estudo a educação física é oferecida aos alunos fora do horário de aula regular, é voluntária. Das 18hr as 18:45 min nas terças e quintas-feiras, porém os alunos já chegam as 19:30min ou mais, atrasados em suas aulas regulares. Isso mostra que o currículo dessa escola não valoriza essa atividade singular na vida desses alunos, e também um conhecimento frágil sobre a especificidade de alunos trabalhadores. Marx sugere que uma educação deve partir da integração entre o ensino e o trabalho, que para ele é o ensino politécnico ou formação omnilateral. E um dos três elementos básicos é a atividade física.

-          Ensino Intelectual - cultura geral;

-          Desenvolvimento Físico - ginástica e esportes;

-          Aprendizagem profissional polivalente / técnico - cientifico.

A Educação Física tem por objetivo sistematizar a educação integral do homem, por meio de atividades físicas de acordo com suas necessidades bio-psico-fisiológicas e sociais. Busca entender o ser humano em todas as suas dimensões e no conjunto de suas relações individuais com os outros e com o mundo. A meu ver, deve ser organizada a partir do conhecimento das ciências físicas, biológicas e humanas.

A Língua Estrangeira nas aulas de EJA deve ser um instrumento de libertação e transformação, assim como a alfabetização deve ser precedido pela leitura de mundo como nos é apresentado por Freire, e é a partir das experiências de vida do aluno que se vai sistematizando a segunda língua. Não esquecendo o aspecto essencial do trabalho a condição de contextualização

Outro ponto a destacar é a questão da Arte na educação. Muitos devem se perguntar qual é a função da arte na EJA no cotidiano do individuo cuja perspectiva é acima de tudo a sobrevivência imediata? Seguindo esta abordagem teórica, todos devem ter acesso ao patrimônio cultural e ao conhecimento sistematizado ao longo do tempo. Por isso deve ampliar o universo cultural do aluno, a sensibilização em relação ao seu meio ambiente e a busca da expressão individual e coletiva que lhe satisfaçam e preparem para a outra busca maior de transformação da sociedade. Mesmo sabendo que a sociedade dominante centraliza a produção e o consumo da arte, não reconhecendo a produção popular. A sensibilização e a livre expressão sem a leitura crítica que avalie a produção, de nada serve.

Esses aspectos que apontamos, são apenas alguns deles, mas que podem proporcionar uma organização e sistematização diferenciada da totalidade concreta do Currículo para jovens e adultos trabalhadores, que vêem na educação uma forma de melhorar e qualificar as suas condições materiais de sobrevivência. A partir desses elementos é possível que haja uma substituição da práxis utilitária cotidiana desses alunos, por uma práxis revolucionaria da humanidade, ou seja, que eles possam ser capazes através do pensamento dialético captar a “coisa em si” e sistematicamente se perguntar como é possível chegar à compreensão da realidade. Pois o mundo que se manifesta ao homem na práxis fetichizada, no tráfico e na manipulaçaõ, não é o mundo real, embora tenha a “consistência” e a “valides’ do mundo real: é “o mundo da aparência”. A representação da coisa não constitui uma qualidade natural da coisa e da realidade: é a projeção, na consciência do sujeito, de determinadas condições históricas e petrificadas.

O que realmente aspiramos é que o currículo para estes trabalhadores venha fundamentado numa práxis revolucionária, que Kosik (1976, p. 18) coloca como a destruição da pseudoconcreticidade como um método dialético crítico, capaz de dissolver o pensamento das criações fetichizadas do mundo reificado e ideal, para alcançar a sua realidade. E esta prática é viável só porque e só na medida em que nós mesmos produzimos a realidade, e na medida em que saibamos que a realidade é produzida por nós.

A destruição da pseudoconcreticidade significa que a verdade não é nem inatingível, nem alcançável de uma vez para sempre, mas que ela se faz, logo, se desenvolve e se realiza. Portanto, a destruição da pseudoconcreticidade se efetua como: 1- Critica Revolucionaria da práxis da humanidade, que coincide com o devenir humano do homem, com o processo de “humanização do homem”, do qual as relações sociais constituem as etapas-chaves. 2- Pensamento Dialético, que sissolve o mundo fetichizado da aparência para atingir a realidade e a “coisa em si”. 3- Realizações da verdade e criação da realidade humana própria, espiritual, como individuo social-historico. Cada um de nós pessoalmente e sem que ninguém possa substitui-lo tem de se formar uma cultura e viver a sua vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA

 

COLAO, Magda. A formação do técnico e do tecnólogo no curso de viticultura e enologia do Centro federal de educação Tecnológica de Bento Gonçalves-RS e a educação Profissional. Um estudo de caso. Tese doutoral. UFRGS. Porto Alegre. 2005. p. 324.

 

KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1976. p. 230.

 

MARX, Karl. Contribuição a Crítica da Economia Política. São Paulo, Editora Martins Fontes, 1983, p. 289.

 

MESZAROS, István. A crise Estrutural do Capital. São Paulo: Boitempo. 2009. p. 135.

 

________________. A Educação para além do Capital. São Paulo: Boitempo. 2005. p. 79.

 

SIQUEIRA, Janes. A luta do jovem que trabalha e estuda nas escolas estaduais de Porto Alegre/RS. Um estudo de Caso. Porto Alegre. UFRGS. 2004. Tese de doutorado.

 

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo S.. A| formação do Educador como Pesquisador no Mercosul - Conesul. Porto alegre: Editora da UFRGS.2003.

 

VIERO, Anésia. A Educação dos Professores. Reconstituindo as Dimensões do Trabalho do Educador do Serviço de Educação de Jovens e Adultos de Porto Alegre. Porto alegre. UFRGS. 2001. Dissertação de Mestrado.

 

VIERO, Anésia; Siqueira, Janes Fraga; Viegas, Moacir Fernando. As Políticas Públicas e as Concepções de Educação de Jovens e Adultos no Brasil no contexto da reestruturação capitalista. Reflexão e Ação. V.07, nº 2 (jul/dez) 1999. Santa Cruz do Sul: Editora da UNISC. 2000.

 

 

 



[1] A autora é Mestre em Educação pela UFRGS, professora da Rede Municipal de Porto Alegre e da Rede Estadual do Rio Grande do Sul, pesquisadora da Linha de Pesquisa: Trabalho, Movimentos Sociais e Educação.
[2] Esta concepção de totalidade do materialismo dialético significa: “Realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fator qualquer pode vir a ser racionalmente compreendido.” (KOSIK, 1976,35) 
[3] Segundo Kosik, o mundo da pseudoconcreticidade é constituído pela complexidade dos fenômenos que povoam o ambiente cotidiano e a atmosfera comum da vida humana, que, com a sua regularidade, imediatismo e evidencia, penetram na consciência dos indivíduos agentes, assumindo um aspecto independente e natural. Pertencem a esse mundo, o mundo do trafico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada dos homens ( que não coincide com a práxis revolucionaria da humanidade); o mundo das representações comuns, que são projeções dos fenômenos externos na consciência dos homens, produto da práxis fetichizada, formas ideológicas de seu movimento; mundo dos objetos fixados, que dão a impressão de ser condições naturais e não imediatamente reconhecíveis como resultado da atividade social dos homens. (1976, p. 11)
[4] Viero, Anézia. Currículo em EJA – constituição das áreas de conhecimentos: aspectos teóricos e práticos. 2002. documento digitado.
[5] Ex-coordenadora e atual professora do Centro Municipal de Educação dos trabalhadores Paulo Freire.
[6] Viero, Anézia. Op cit. p. 03.
[7] Triviños, Augusto Nibaldo S.. A| formação do Educador como Pesquisador no Mercosul ? Conesul. Porto alegre: Editora da UFRGS.2003.
[8] Viero, Anézia. Op cit. p. 07
[9] Filosofia como uma atividade humana indispensável, visto que a essência da coisa, a estrutura da realidade,  a “coisa em si”, o ser da coisa, não se manifesta direta e imediatamente. Neste Sentido a filosofia pode ser caracterizada como um esforço sistemático e critico que vida a captar a coisa em si, a estrutura oculta da coisa, a descobrir o modo de ser do existente. (Kosik, 1976, 14)

OS TRABALHADORES DA EDUCAÇÃO PÚBLICA E A MATERIALIZAÇÃO DA PRECARIDADE DO SEU TRABALHO


OS TRABALHADORES DA EDUCAÇÃO PÚBLICA E A MATERIALIZAÇÃO DA PRECARIDADE DO SEU TRABALHO

Sonia Ribas de Souza Soares

Doutoranda em Educação na UFRGS


Resumo: Este artigo pretende apresentar uma discussão sobre os trabalhadores da educação pública, e a precarização do seu trabalho, como reflexo das diversas mudanças ocorridas no mundo do trabalho, fruto da necessidade da sociedade capitalista, determinada por interferências dos organismos internacionais de financiamentos presentes e decisivos da política neoliberal no projeto de sociedade brasileira, de forma singular na educação e no trabalho dos professores. Com olhar marxiano analiso primeiramente a centralidade do trabalho, ontologicamente falando, no tempo e no espaço singular, e sua direta articulação com a totalidade deste, como intercambio do homem com a natureza, e é, por meio do trabalho, que o homem se humaniza e torna-se um ser social. E contraditoriamente, na sociedade sob esta lógica, determinada historicamente, este mesmo trabalho aliena, infelicita o ser social e se realiza em condições precarizadas. Somente rompendo com essa forma de organização social será possibilitado ao trabalhador, enquanto um ser histórico e concreto gozar das diversas potencialidades criativas, forjadas a partir do e no trabalho.

Este artigo procura sistematizar os fatores de precarização dos trabalhadores da educação pública de modo geral, sua materialidade, como reflexo das mudanças ocorridas no desenvolvimento do processo de trabalho, como parte da necessidade do modo de produção, de formar a força de trabalho conforme suas necessidades. Por isso, segue as regras da produção geral de mercadorias, que na realidade atual se materializa como formação precarizada para trabalhos precarizados.

Analisar os fatores de precarização do trabalho da classe que vive da força do seu trabalho, e de forma particular na educação na rede pública, implica compreender que o trabalho ocupa centralidade em nosso estudo, enquanto fundamento da prática social. É  por meio do trabalho, que o professor, como os demais trabalhadores, ao mesmo tempo em que é submetido pelo capital ao processo de produção de valor - para a própria valorização desse mesmo capital, e não em benefício destes - contribui para a transformação desta mesma realidade, tendo como horizonte a construção de relações sociais mais justas e igualitárias.

Atualmente a maioria dos professores se encontram numa situação angustiante, com mais ou menos intensidade, a conviver com as várias facetas da precariedade, como as condições de trabalho, aumento da jornada de trabalho, (tanto em intensidade como no aumento da carga horária das/os professoras/res) acúmulo de funções, falta de recursos humanos, perdas de direito e garantias, salários baixos, feminização (80% de mulheres na constituição da categoria), fatores de riscos (violência na escola e em seu entorno), adoecimento, terceirização dentro da escola através da contratação por cooperativas para as funções da limpeza e da cozinha, programas federais com os contratos temporais, como formas de precarização. Este processo é um desmonte por dentro do setor público, inserindo estratégias políticas do setor privado, precarizando o trabalho dos profissionais.

Neste sentido a condição do trabalhador em educação nos remete a situá-lo, como um sujeito despossuído dos meios de produção, um trabalhador também expropriado. A condição de sua reprodução de vida depende como a de qualquer trabalhador da venda da capacidade de trabalho. No processo de troca, ele a vende no mercado de trabalho. De acordo com as leis da mercadoria e da organização produtiva do capital, o professor não prescinde sua vida material das relações de mercado e da circulação de mercadoria. (CUNHA, 2010, p. 92) Ou seja, precisa fazer circular sua capacidade de trabalho, como mercadoria, embora diferente em qualidade e forma do trabalhador que vende sua força de trabalho para produzir a mais-valia.

Revendo os significados do trabalho, Marx definiu o trabalho:

“Um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põem em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza.” (MARX,1989a, p. 202).  

Hoje o trabalho exige conhecimento multidisciplinar; é também a atividade laboral fonte de experiência psicossocial, sobretudo dada a sua centralidade na vida das pessoas: é indubitável que o trabalho ocupa parte importante do espaço e do tempo em que se desenvolve a vida humana. Assim, ele não é apenas meio de satisfação das necessidades básicas, é também fonte de identificação, de desenvolvimento das potencialidades humanas, de alcançar sentimento de participação nos objetivos da sociedade e ao mesmo tempo “vida”.

Segundo Padilha (2011, 3), o trabalho e profissão (ainda) são senhas de identidade, e as transformações que testemunhamos hoje, continuam ancorando sua existência na atividade laboral, mesmo aquelas que se encontram em situação de desemprego. A centralidade do trabalho dá-se não só na esfera econômica (o trabalho é a fonte de renda da maioria da população mundial) como também na esfera psíquica – o que, certamente, representa uma contradição, uma vez que a atividade laboral ainda parece ser uma importante fonte de saúde psíquica, (tanto que sua ausência, pelo desemprego ou pela aposentadoria, é causa de abalos psíquicos) ao mesmo tempo, em que se registram cada vez mais pesquisas que evidenciam o trabalho como causa de doenças físicas, (MÉSZÁROS, 2006), doenças mentais (MARCELINO, 2011) e de mortes (SELIGMAN-SILVA, 1994). É preciso perguntar: que tipo de trabalho adoece corpo e mente e até mata? Certamente, não é o trabalho criativo, produtivo, prazeroso, que deveria ser central na vida das pessoas, colocado por Marx.

Quando afirmo ser o trabalho central na vida das pessoas, parto do olhar marxita de que é por meio da ontologia do trabalho que o homem torna-se um ser social. Vale lembrar que quando se fala da dimensão do trabalho como categoria histórico/social primeira está se pensando em atividade que cria valor-de-uso e que trava relações entre o homem e a natureza, e entre os homens.

O Processo de Precarização do trabalhado

Este termo tem sido utilizado para designar perdas nos direitos trabalhistas, reduções das garantias do trabalho e a qualidade no exercício da atividade, ocorridas na realidade das transformações do mundo do trabalho a partir dos anos 70, pois as economias passaram a enfrentar problemas que se expressam pelas baixas taxas de crescimento e elevação das taxas de inflação e das taxas de desemprego. Em termos gerais refere-se a um conjunto amplo e variado de mudanças em relação ao mercado de trabalho, condições de trabalho, qualificação dos trabalhadores e direitos trabalhistas, na realidade do processo de ruptura do modelo de desenvolvimento fordista e de emergência de um novo padrão produtivo. (Mattoso, 1995)

O mundo do trabalho é um jogo de forças comandado pelos interesses dos empregadores que, inserido numa realidade socioeconômica mais desfavorável aos não-qualificados, impõe trabalhos precarizados a uma enorme camada da população. Do setor industrial ao setor de serviços, do trabalho formal ao trabalho informal, tanto em espaços privados como em espaços públicos, em especial a educação. Incontáveis sujeitos vivem longe das possíveis vantagens que vêm do núcleo privilegiado do capitalismo.

Irene Galeazzi entende precarização do trabalho como situações laborais que se tornaram expressivas com a ocorrência da chamada ‘reestruturação produtiva’ sob égide neoliberal. Segundo ela, “a definição de trabalho precário contempla pelo menos duas dimensões: a ausência ou redução de direitos e garantias do trabalho e a qualidade no exercício da atividade”. (GALEAZZI, 2006, p. 203)

No final dos anos 60 do último século o modelo fordista de desenvolvimento entra em crise: cresce a insatisfação dos operários com a organização taylorista-fordista de execução de tarefas maçantes e repetitivas; explodem movimentos sociais, sindicais e extra-sindicais; as empresas aumentam os preços gerando inflação, questionam os compromissos estabelecidos no Welfare State, e assumem políticas que prejudicam as conquistas trabalhistas.

Deste processo emergem mudanças marcadas pela inovação tecnológica, por mudanças nas formas de organização e gestão do trabalho e pela descentralização da produção, invertendo-se a tendência de verticalização das empresas. Cresce a terceirização, flexibilizam-se as relações trabalhistas, bem como muda a estrutura vertical das instituições emergindo um modelo de rede, com forte colaboração interempresas e intersetorial. A empresa ou instituição mantém o que é central e terceiriza parte do seu processo de produção.

A flexibilização e estruturação de rede interempresarial possibilita que o processo de produção envolva trabalhadores submetidos a diversas formas de contratação, recebendo salários diferenciados para a realização de trabalhos semelhantes e sem os mesmos benefícios que os trabalhadores deveriam receber. A confecção de um produto pode resultar do trabalho desenvolvido de diversas formas: prestação de serviço, trabalho por tempo determinado, assalariados de empresas terceiras, membros de cooperativas, e outras. Essa multiplicidade de formas de contratação difere da padronização fordista e tem sido chamada pelos defensores de “flexibilização” (PIORE & SABEL, 1984).

Neste movimento, o processo do sistema educacional brasileiro passam por diversas mudanças, como um crescimento brutal e constante das necessidades de incorporar um amplo contingente economicamente ativo, porém fora do mercado de trabalho. Aqui passa o processo de precarizações desde a falta de trabalhadores habilitados para atender em sistemas públicos, como a inserção de profissionais sem a devida formação para atender a demanda, medidas de autorização e de certificação pessoal, as mulheres foram incorporadas nos quadros do magistério e os órgãos governantes vêm até hoje tomando “decisões” para enfrentar esta precariedade.

Vasapollo apresenta que a chamada flexibilização do trabalho é a liberdade da empresa para despedir parte de seus empregados, sem penalidades, quando a produção e as vendas diminuírem; liberdade da empresa em reduzir ou aumentar o horário de trabalho, repetidamente e sem aviso prévio, quando a produção necessite; faculdade da empresa de pagar salários reais mais baixos do que a paridade de trabalho (...); possibilidade de a empresa subdividir a jornada de trabalho em dia e semana de sua conveniência, mudando os horários e as características (trabalho por turno, por escala, em tempo parcial, horário flexível etc.); liberdade para destinar parte de sua atividade a empresas externas; possibilidade de contratar trabalhadores em regime de trabalho temporário (...) diminuindo o pessoal efetivo a índices inferiores a 20% do total da empresa (VASAPOLLO, 2006, p. 45-46).

Este processo de flexibilização nada mais é que uma subcontratação onde as empresas em busca da qualidade excedente dos lucros e da competitividade, impulsiona a reestruturação das empresas com diversas funções e especializações. Contrata diretamente a mão de obra autônoma, que faz parte de uma organização que presta estes serviços a diversas empresas. Esta “condição autônoma” não incorpora os direitos e benefícios garantidos por lei ao trabalhador assalariado. 

Mészáros (2011) vem contribuir colocando o Mito da “flexibilização” com o qual a pílula amarga é coberta de açúcar. Pois do que estamos a falar é de facto a grave tendência socioeconómica da equalização descendente (downward equalisation) da taxa de exploração diferencial. Ou seja, os obstáculos reais que confrontam o trabalho no presente e no futuro próximo podem ser resumidos em duas palavras: "flexibilidade" e "desregulamentação”: dois dos mais queridos slogans das personificações do capital nos negócios de hoje e também na política. Eles pretendem soar muito atraentes e progressistas.

Na verdade, contudo, eles condensam as mais agressivas aspirações anti-trabalho e políticas neoliberais, apregoadas como recomendáveis para todo o ser racional tal como a maternidade e a torta de maçã. Pois a "flexibilidade" em relação às práticas de trabalho - a ser facilitada e forçada através de várias espécies de "desregulamentação" - aumenta na realidade a brutalidade da eventualização (casualisation) da força de trabalho. Ela é frequentemente emparelhada com legislação anti-trabalho autoritária — desde a supressão de Reagan dos controladores aéreos dos EUA até as longas séries de viciosas leis anti-trabalho de Margaret Thatcher: caracteristicamente mantidas pelo governo "New Labour" de Tony Blair. E as mesmas pessoas que clamam ser a difusão das condições de trabalho mais precárias "flexibilidade" universalmente benéfica também se atrevem a chamar a prática da legislação autoritária anti-trabalho de "democracia". (MÉSZÁROS, 2006, p. 7)

Mészáros vem colocar que diante da crise estrutural do capital, só pode haver um caminho para tentar alargar as margens contraídas da acumulação de capital: a expensas do trabalho. Isto é uma estratégia promovida ativamente pelo Estado — na verdade, devido a esta necessidade, o papel intervencionista do Estado nunca foi tão grande. 

A literatura também registra que a ‘precarização do trabalho’, com múltiplas relações contratuais, tem contribuído para aumentar as dificuldades de representação e atuação sindical deixando os trabalhadores desprotegidos e mais vulneráveis às exigências gerenciais e patronais (MATTOSO, 1995; PIRES, 1998). Sendo assim, cabe ao movimento dos trabalhadores terem êxito em rearticular radicalmente suas próprias estratégias e formas de organização, orientando-as rumo à criação de um movimento de massas genuíno, a fim de fazer face ao desafio histórico. Por que o movimento em que se encontram os trabalhadores é um retrocesso histórico conduzindo importante parcela dos seres humanos a uma situação de extrema vulnerabilidade.

A materialização da precarização da Educação Pública e dos trabalhadores em educação

O processo de precarização tem ocorrido com maior intensidade na produção industrial e nos setores de ponta da economia, mas têm afetado de modo diferenciado todos os setores da produção na sociedade. É visível no setor de serviços em geral (Offe, 1991), na educação, em particular, no trabalho do professor.

Valéria Padilha sistematiza o trabalho precário como um conjunto de fatores – os quais podem ou não estar combinados – que caracterizam a atividade laboral de inúmeros trabalhadores. Inclusive, eu diria, dos trabalhadores da educação pública.

“a) desregulamentação e perdas dos direitos trabalhistas e sociais (flexibilização das leis e direitos trabalhistas); b) legalização de trabalhos temporários, em tempo parcial, e da informalização do trabalho; c) terceirização e quarteirização (‘terceirização em cascata’); d) intensificação do trabalho; e) aumento de jornada (duração do trabalho) com acúmulo de funções (polivalência); f) maior exposição a fatores de riscos para a saúde; g) rebaixamento dos níveis salariais; h) aumento de instabilidade no emprego; i) fragilização dos sindicatos e das ações coletivas de resistência; j) feminização da mão-de-obra; e k) rotatividade estratégica (para rebaixamento de salários)”. (PADILHA, 2010, 550-551)

Alguns destes fatores favorecem as mudanças no âmbito da educação no Brasil como: o crescimento do número de trabalhadores contratados na rede pública, sem as totais garantias trabalhistas de que gozam os demais trabalhadores da instituição. Encontra-se: contratos temporários; trabalhadores contratados para realizar atividades pedagógicas sem ter o direito á horário de planejamento. Segundo os dados do IBGE, de 2007, há aspectos ainda piores que são os casos do estado de São Paulo e Goias. Trabalhadores precarizados chamados de “Categoria O”. Esses (21%) professores não possuem contratos de trabalho nem pela CLT, nem pelo Estatuto dos funcionários públicos. Estes ministram aulas, como prestadores de serviços para a Associação de Pais e Mestres, ou trabalho voluntário.

A flexibilização na contratação de monitores, sem formação específica,  (desenvolverem oficinas de letramento, matemática, artesanato, dança, teatro, etc) no turno inverso de aula, para alunos das escolas públicas, caracterizando como turno integral, e estes monitores perpassam os espaços da escola sem conhecimento do projeto politico pedagógico da instituição, ganhando uma ajuda de custo entre 120,00 e 250,00 reais.

Como nos demais setores da produção, a terceirização também cresce na educação e no desenvolvimento do trabalho do professor e tem sido utilizada pelos empregadores tanto do setor público quanto do privado, para diminuir os custos com a remuneração da força de trabalho e para fugir das conquistas salariais e direitos trabalhistas dos trabalhadores efetivos da instituição-original (DIEESE, 1993; PIRES, 1998; PIRES, GELBCKE & MATOS, 2004).

Nas instituições públicas o setor de serviços tanto da limpeza, como da alimentação, esta quase totalmente terceirizado, ou seja “cooperativado”. Estas se materializam na busca do rebaixamento dos custos da produção via redução do custo da mão-de-obra, esta é uma forma especial de terceirização, eliminando encargos sociais da folha de pagamento, uma vez que, estes não têm vínculos empregatício, portanto, carteira assinada, não usufruem dos direitos trabalhistas e previdenciários básicos.

O trabalho precário está relacionado também aos vínculos de trabalho na Educação que não garantem os direitos trabalhistas e previdenciários. Para as entidades sindicais CPERGS, ATEMPA e SIMPA que representam os trabalhadores que atuam na educação de Porto Alegre, trabalho precário está caracterizado não apenas como ausência de direitos trabalhistas e previdenciários consagrados em lei, mas também como ausência de concurso público. Na rede estadual do RS, da totalidade de trabalhadores em educação, 40% que atendem a educação básica são contratados e não concursados. Segundo o Censo escolar de 2012, existem mais de 7 estados no Brasil na rede estadual de educação possue contratos de trabalho superiores aos concursados, Espírito Santo (71%), Mato Grosso (66,1%), Acre (62,9%), Ceará (60,2%), Mato Grosso do Sul (60,1%), Santa Catarina (59,8%) e Paraíba (51,9%) Rio Grande do Sul (40,7%)

 Temos inúmeros casos de instituições estaduais e municipais, na qual alunos estão terminando o Ensino fundamental e ainda não tiveram aulas de matemáticas, português, ciências e outras áreas do conhecimento, ou quando muito só tem aula até o intervalo, ou, os alunos são encaminhados para suas residências por falta de professoras e professores. (SOARES, 2012) Ou os professores e professoras que estão trabalhando na instituição, muitas vezes são forçados a lecionarem turnos e horas de trabalho superiores a sua jornada porque não chegam professores encaminhados pela mantenedora.

Professores sem habilitação atuando, a intensificação do trabalho e o aumento de jornada (duração do trabalho) com acúmulo de funções (polivalência), salários baixos, estes fatores colocam os trabalhadores em situações de vulnerabilidade, possibilitando uma maior exposição a fatores de riscos para a saúde. As múltiplas atividades do professor, essa polivalência, é a sobrecarga de trabalho, que, por sua vez, gera a necessidade de trabalho no tempo de lazer, com consequências em termos de desgaste físico e psíquico, assim como dificuldades na relação familiar. Segundo Hypolito (2008, 6-7) o isolamento entre os trabalhadores da mesma instituição, reduz a qualidade do tempo, somente o “essencial” é realizado, limitando as possibilidades de reflexão conjunta. Habilidades coletivas de trabalho são perdidas ou reduzidas enquanto habilidades de gerência são incrementadas.

Uma das questões bem visíveis da precarização do trabalho do professor refere-se ao salário recebido pelo tempo de dedicação às suas funções, sobretudo quando se focaliza a imensa maioria, ou seja, os que atuam nas diversas escolas da rede pública. Segundo Siniscalco (2003) a dureza dessa realidade em comparação com outros países, inclusive aqueles com piores condições sociais e econômicas: o Brasil está acima apenas da Indonésia e quase empata com o Peru. Todos os demais oferecem salários mais elevados na educação primária. Na educação secundária também é um dos sete piores do mundo. Esse é um fator que incide pesadamente sobre a precarização do trabalho dos professores, pois a pauperização profissional significa pauperização da vida pessoal nas suas relações entre vida e trabalho, sobretudo no que tange ao acesso a bens culturais.

Sendo assim, muitos professores dobram sua carga horária de trabalho em escolas diferentes e em redes diferentes estadual, municipal e privada para garantir o mínimo das condições materiais de sobrevivência. Com o atual Governo de frente popular Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, a questão salarial dos trabalhadores em educação, nem a aplicação do piso da lei (11.738/08) rumo ao piso do DIEESE foram aplicados, nas instituições estaduais.

Outro aspecto a ressaltar e a feminização da mão-de-obra. As mulheres são a maioria na educação, chegando atualmente, a 80% o numero de sua participação nas bases das categorias. Mas isto se faz um registro histórico onde as mulheres desde o séc. XIX eram consideradas as “mais adequadas” para o exercício do magistério, não só as brasileiras, mas as mulheres da América Latina e Caribe.  

O número elevado de alunos, fruto das políticas do governo da Ieda Crusius (2006 a 2010), a qual carregava a bandeira de um “novo jeito de governar”, fechando salas de aulas para enturmações, materializando políticas por meio de programas de alfabetização, reforçando com o Alfabetiza Rio Grande, traduzindo uma política neoliberal, onde o dever do estado com a alfabetização passa a ser “um dever de todos nós”, um desdobramento dos programas Federais de alfabetização, fortalecendo as parcerias do público e do privado e precarizando as relações de trabalho dos professores. Reflexo das interferências de organismos internacionais de financiamentos presentes e decisivos nos projetos sociais.   

Como parte da EJA, as escolas municipais e estaduais ainda contam com os programas federais como o ProJovem  destinado aos jovens entre 18 e 24 anos  que cursaram até a 4 série do Ensino Fundamental. É um programa para esses jovens concluírem o Ensino fundamental e iniciação profissional em 12 meses. Os trabalhadores em educação são contratados especialmente para o programa. Não precisa muita análise para ver que este programa oferece uma escolarização precária, no momento que condensa quatro anos em um,  como também forma mão de obra precária destinados a quem realiza trabalhos precarizados, não bastasse os alunos, as relações de trabalho dos professores também é precarizada, visto que não são professores concursados que dão aula, seu emprego depende da continuidade do programa, acabando  junto com sua conclusão.

Considerações Finais

O conjunto das transformações operadas no mundo do trabalho no último século, as mudanças no processo capitalista de trabalho refletem uma contínua transformação dentro do mesmo processo de trabalho, atingindo principalmente a produção industrial e todos os setores da produção na sociedade, em especial a educação e a condições dos trabalhadores que vivem do seu trabalho, flexibilizados e precarizados. Este processo determinado pelas políticas Neoliberais, materializaram e materializam em programas federais de financiamentos e outros que contemplem esta política de sociedade. Somente rompendo com essa lógica, o trabalhador criará novas possibilidades de ser “feliz e livre”.

Referências Bibliográficas

 

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